Museu Familia Assad
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Jorge Assad Simão Neto (1948–2013)
A Descoberta do Ritmo
A Música como Destino
Entre Desafios e o Pertencimento
O Olhar Único do Cito
O Silenciar do Pandeiro

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Familiaassad Cito Infancia (24)

Jorge Assad Simão Neto (1948–2013)

Jorge Assad Simão Neto, known as Cito, was the first child of Seu Jorge and Dona Ica. He was born on March 24, 1948, at his grandmother Mariquinha's home — my mother's mother — and from that very beginning his story seem...

Jorge Assad Simão Neto, o Cito, foi o primeiro filho de Seu Jorge e Dona Ica. Nasceu em 24 de março de 1948, na casa da avó Mariquinha — mãe de minha mãe —, e já naquele início sua história parecia anunciar uma vida marcada por desafios e por uma forma muito particular de estar no mundo.

O parto foi difícil. O bebê nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço e precisou ser retirado com o auxílio de fórceps. Dona Ica tinha apenas 17 anos e já enfrentava, com coragem, os mistérios da primeira gravidez. A falta de oxigenação deixou marcas irreversíveis: lesões cerebrais que se manifestariam ao longo de toda a sua vida, acompanhadas por crises epilépticas que começaram quando ele tinha apenas três dias.

Naquela época, pouco se sabia sobre como tratar sua condição. A medicina da pequena São João da Boa Vista não tinha recursos para diagnosticar — muito menos para controlar — suas crises. Não só não sabiam como tratá-lo, como o fizeram de forma equivocada: medicaram-no para sífilis, o que trouxe ainda mais complicações. Assim, sua infância transcorreu sem o tratamento adequado — uma lacuna que, anos depois, os médicos reconheceriam como decisiva.

Para minha mãe, começou ali um exercício profundo e ininterrupto de amor: um aprendizado precoce de cuidado, entrega, paciência e generosidade.

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Áudio · Mãe Assad

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A Descoberta do Ritmo

Enquanto a família aprendia a lidar com a fragilidade do primeiro filho, a vida seguia. Aos domingos, meus pais o levavam para passear na praça central da cidade, onde alto-falantes tocavam música. Foi ali que ela começo...

Enquanto a família aprendia a lidar com a fragilidade do primeiro filho, a vida seguia. Aos domingos, meus pais o levavam para passear na praça central da cidade, onde alto-falantes tocavam música. Foi ali que ela começou a se infiltrar no cotidiano da família — primeiro como escuta, depois como prática e, mais tarde, como destino.

Entre mudanças de cidade e tentativas de encontrar um caminho, a família seguiu adiante. Quando moraram em Mococa, Cito ganhou dois irmãos, Sérgio e Odair, com quem passou a infância — ora cuidando, ora sendo cuidado. Mais tarde, estabeleceram-se em Ribeirão Preto.

Na nova cidade, minha mãe continuava a levá-lo a médicos, pois as convulsões permaneciam frequentes. Pela primeira vez, ao visitar um neurologista, chegou um diagnóstico mais preciso: epilepsia severa e múltiplas lesões cerebrais, decorrentes do nascimento e de anos de medicação equivocada. Veio também uma constatação dolorosa: o quadro poderia ter sido controlado, ao menos em parte, se tivesse sido tratado desde cedo.

Familiaassad Cito Infancia 9
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A vida escolar de Cito nunca foi simples. As escolas não estavam preparadas para recebê-lo. Com o tempo, as tentativas se esgotaram e ele acabou afastado do sistema escolar. Apesar disso, havia algo nele que sempre se destacava com naturalidade: o ritmo.

Desde cedo, ele batucava em tudo. Em qualquer superfície, em qualquer objeto, havia som. Percebendo isso, minha mãe pediu que meu pai lhe comprasse um pandeirinho. E então algo inesperado aconteceu. Ele não apenas acompanhava — ele inventava. Criou uma forma própria de tocar: mantinha a mão dominante firme, enquanto a outra — que segurava o instrumento — se movia para cima e para baixo, produzindo o ritmo. Cito se transformou em um verdadeiro metrônomo humano.

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Apesar de sua condição, ele tinha muita energia e, na tentativa de ocupar seus dias, minha mãe seguia buscando atividades das quais ele pudesse participar. Uma delas foi ser gandula no time de futebol de um amigo da família. Mas isso não era suficiente. Como nunca desenvolveu senso de responsabilidade, era considerado um menino travesso.

Certo dia, pegou escondido a bicicleta que meu pai havia comprado para se locomover pela cidade e, sem explicação, voltou para casa sem o selim. Dona Ica, que sempre encobria suas artes, inventava histórias para meu pai, para que ele nada descobrisse, muitas vezes assumindo ela mesma a autoria das façanhas.

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Certa vez, após um dia inteiro de crises ininterruptas, meus pais precisaram levá-lo ao hospital. Não havia vaga. Era domingo. Foi então que minha mãe teve a ideia de arriscar, e foram, à noite, bater na porta da casa do médico para pedir ajuda. Ao retornarem ao hospital, um leito já o esperava. Internado, descobriram que sua respiração estava comprometida, e ele precisou passar por uma traqueostomia de emergência. Ficou internado por dias. Essa foi a primeira de muitas vezes em que a família não sabia se ele sobreviveria.

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A Música como Destino

Quando Sérgio e Odair começaram a tocar violão com nosso pai, Cito já estava lá, acompanhando as rodas de choro com seu pandeiro, quando elas eram em casa. Muito rapidamente, Sérgio e Odair começaram a surpreender pela v...

Quando Sérgio e Odair começaram a tocar violão com nosso pai, Cito já estava lá, acompanhando as rodas de choro com seu pandeiro, quando elas eram em casa. Muito rapidamente, Sérgio e Odair começaram a surpreender pela velocidade com que aprendiam o repertório do pai. Seu Jorge se envolveu profundamente no processo e passou a dedicar todos os seus esforços para que eles pudessem se desenvolver como músicos. Foi esse movimento que acabou levando a família ao Rio de Janeiro, para que os meninos pudessem estudar violão com a professora Monina Távora.

Eu tinha apenas dois anos quando fizemos essa mudança. Deixamos para trás a vida que, depois de muito sacrifício, começava a se estabilizar financeiramente. Depois de algumas idas e vindas entre Ribeirão Preto e São João da Boa Vista, pegamos estrada com o que coube no carro. No subúrbio carioca, vivemos por anos entre diferentes casas, sempre buscando equilíbrio e sustento, enquanto Sérgio e Odair construíam seus caminhos na música.

Enquanto tudo isso acontecia, em casa, Cito seguia precisando de atenção constante. Mas havia algo que nunca o deixou: o pandeiro que, ao longo da vida, foi seu companheiro mais fiel. Cito passava horas ouvindo discos. O repertório era diverso, indo do choro e música popular brasileira até músicas orquestradas. E ele, sempre com o pandeiro em mãos, acompanhava a diversidade, no seu próprio tempo e ritmo. Foi na vitrola dele que eu ouvi Chico Buarque pela primeira vez.

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As crises epilépticas, porém, continuavam a acompanhá-lo. Eram intensas, muitas vezes assustadoras. Eu me lembro, ainda menina, de vê-lo cair, o corpo se contorcendo, a língua se enrolando, até que alguém a segurasse para evitar o sufocamento. Ele repetia sons — "ventura, ventura, ventura" — até que, exausto, o corpo cedia. Depois vinha o silêncio, e ele se recolhia. Essas cenas marcaram profundamente a minha infância.

Quando eu tinha 14 anos, voltamos a morar em São João da Boa Vista. Sérgio e Odair já estavam com suas carreiras despontando internacionalmente, e meu pai achou que era hora de voltar para nossa terra natal. A casa onde fomos morar era muito pequena, e por um tempo Cito e eu dividimos um espaço improvisado atrás de uma cortina, no fundo da cozinha. De um lado, sua cama, com a vitrola, os discos e o pandeiro. Do outro, minha cama, meus cadernos e muitos sonhos. Entre nós, um armário. Era pouco espaço. Mas era infinito. Foi ali que comecei a tocar violão com meu pai também.

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Entre Desafios e o Pertencimento

Ao longo da vida, minha mãe sempre buscou formas de fazer com que Cito se sentisse útil. Ele ajudava como podia — fazia etiquetas para os relógios do pai, marcando preços; engraxava sapatos para ele e seus clientes; sabi...

Ao longo da vida, minha mãe sempre buscou formas de fazer com que Cito se sentisse útil. Ele ajudava como podia — fazia etiquetas para os relógios do pai, marcando preços; engraxava sapatos para ele e seus clientes; sabia escrever e vivia copiando receitas que minha mãe queria, assim como as letras das músicas que ela gostava de cantar.

Em São João, meu pai tentou abrir sua relojoaria em dois pontos no centro da cidade, mas não obteve sucesso. Em vez de tentar uma terceira locação, resolveu levá-la para a garagem da casa. Mas, ali também, os clientes não chegaram. A situação financeira deles se tornou bastante precária. Minha mãe me contou que, muitas vezes, o vendedor abria os sacos de um quilo e separava uma parte, para que ela pudesse levar o que cabia no bolso.

Foi então que ela tomou uma decisão difícil: ligar para os filhos no Rio de Janeiro e pedir ajuda. Eles sugeriram que meu pai voltasse a cuidar da relojoaria que havia deixado em Campo Grande, e que agora pertencia a Odair e à sua companheira, Priscila, que cuidava do negócio, já que ele e Sérgio passavam cada vez mais tempo fora do Brasil. Meu pai acabou retornando ao Rio. Em seguida, quis que minha mãe também fosse. Foi nesse momento que Sérgio alugou uma casa para que ela e Cito pudessem se mudar. Nessa época, eu já tinha 18 anos, cursava a Uni-Rio e morava em um quarto alugado em Copacabana.

A casa ficava em um condomínio simples, afastado do centro. Enquanto meu pai passava os dias no trabalho, minha mãe permanecia ali — em um lugar desconfortavelmente silencioso, sem árvores, sem vínculos, atravessando dias que lembra de serem de total solidão. Foi nesse período que o Cito teve uma crise tão forte que foi levado ao Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, e, de lá, encaminhado para o Hospital Miguel Couto, no Leblon. Todos os dias, depois que eu saía da faculdade, ia visitá-los. Minha mãe permanecia ao lado dele dia e noite, sentada em uma cadeira simples, sustentando, como sempre, uma presença inteira. Mais uma vez, ele sobreviveu. Depois disso, minha mãe quis voltar para São João da Boa Vista.

Tempos depois, um acontecimento positivo acabou transformando a rotina do Cito: sua entrada na APAE. Ele já tinha 47 anos quando começou a frequentar a instituição. Animou-se tanto que passou a pegar o ônibus sozinho para encontrar seus amigos. Ali, encontrou algo que talvez lhe tivesse faltado por toda a vida: pertencimento. Entre colegas que o compreendiam, levava seu pandeiro, tocava e fazia todos dançarem. Sentir-se útil e acolhido foi um remédio poderoso.

Paralelamente, os tratamentos médicos, recebidos pelo Hospital das Clínicas da UNICAMP, em Campinas, também encontraram um equilíbrio. Pela primeira vez, suas crises foram controladas. E a vida entrou em outro compasso. Na APAE, ele aprendeu a desenhar e a criar objetos com folhas de revistas. Essas peças — que, a meu ver, são verdadeiras obras de arte — passaram a habitar o cotidiano da nossa família.

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O Olhar Único do Cito

Mas o ritmo e o artesanato não foram a única forma de expressão que nascia nele. De sua própria maneira, ele também era um contador de histórias e eu adorava sentar ao seu lado para fazer perguntas diversas. O Cito sempr...

Mas o ritmo e o artesanato não foram a única forma de expressão que nascia nele. De sua própria maneira, ele também era um contador de histórias e eu adorava sentar ao seu lado para fazer perguntas diversas. O Cito sempre tinha uma resposta inesperada. Uma de minhas preferidas foi quando perguntei por que as folhas das árvores eram coloridas. Ele respondeu, com absoluta convicção, que debaixo da terra existiam tubos cheios de cores, conectados às flores, e que eram eles os responsáveis por levar uma cor diferente para cada uma delas. Fazia todo sentido.

Ele também confundia sonhos com acontecimentos reais. Para ele, aquilo que sonhava tinha, de fato, acontecido. E assim vivia narrando encontros, histórias e situações que sabíamos nunca terem ocorrido — mas que, na experiência dele, eram absolutamente verdadeiras. Era como se habitasse, ao mesmo tempo, dois mundos e transitasse entre eles com naturalidade.

Para mim, o Cito sempre foi muito mais do que alguém que precisava de cuidados. Ele foi presença. Centro. O fio-terra de nossa família. Foi ele quem nos ensinou, sem saber, a respeitar o ritmo da vida e a manter nossos pés no chão, na simplicidade do cotidiano e na pureza das relações humanas.

Quando comecei a tocar violão, eu adorava estudar com ele. — "Cito, toca comigo?" — "Qual o ritmo?" E ali ficávamos, firmes no tempo, por horas.

Em 2001, ele subiu ao palco do Teatro de Tábuas, em São João da Boa Vista, no espetáculo que reuniu toda a Família Assad. Cada um de nós com seu instrumento nas mãos. Ele, com o pandeiro. O Cito sempre esteve presente nas mais importantes reuniões familiares, trazendo sua leveza e generosidade.

Quando comecei a tocar violão, eu adorava estudar com ele. — "Cito, toca comigo?" — "Qual o ritmo?" E ali ficávamos, firmes no tempo, por horas. Em 2001, ele subiu ao palco do Teatro de Tábuas, em São João da Boa Vista, no espetáculo que reuniu toda a Família Assad. Cada um de nós com seu instrumento nas mãos. Ele, com o pandeiro. O Cito sempre esteve presente nas mais importantes reuniões familiares, trazendo sua leveza e generosidade.

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O Silenciar do Pandeiro

Foram alguns anos de calmaria. Todavia, depois da morte do nosso pai, em 2011, sua saúde voltou a se fragilizar. Vieram pequenos derrames, depois um problema na coluna que passou a comprimir sua medula óssea. Com isso, a...

Foram alguns anos de calmaria. Todavia, depois da morte do nosso pai, em 2011, sua saúde voltou a se fragilizar. Vieram pequenos derrames, depois um problema na coluna que passou a comprimir sua medula óssea. Com isso, aos poucos ele foi perdendo os movimentos. Primeiro das pernas. Depois das mãos. O pandeiro foi sendo deixado de lado. Ainda assim, ele acompanhava as músicas com uma só mão, segurando a pequena "batatinha" percussiva.

A única tentativa de minimizar suas dores seria uma cirurgia para descomprimir a medula. Conseguimos uma vaga no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Mas algo aconteceu ali — algo que nunca ficou claro. Na primeira noite de internação, ele piorou drasticamente e foi parar na UTI. Naquela época, eu morava em Atibaia e, como minha filha ainda era pequena, dirigia todos os dias até São Paulo para visitá-lo. Quando recebeu alta da UTI, precisou ser transferido para o Hospital Regional de Suzano, a uma hora e meia de viagem de Atibaia. Ali permaneceu por um mês.

Mais uma vez, sobreviveu. Todavia, voltou para São João da Boa Vista muito debilitado. Na madrugada de 15 de outubro de 2013, após uma nova internação, Cito partiu.

Para muitos, sua vida poderia ser vista como uma história de limitações. Para nós, foi exatamente o contrário. Cito foi um anjo que nos ensinou, todos os dias, sobre compaixão, paciência, amor e ritmo. Ele nos ensinou, literalmente, sobre o tempo das coisas.




Para muitos, sua vida poderia ser vista como uma história de limitações. Para nós, foi exatamente o contrário. Cito foi um anjo que nos ensinou, todos os dias, sobre compaixão, paciência, amor e ritmo. Ele nos ensinou, literalmente, sobre o tempo das coisas."

O Silenciar do Pandeiro